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Propagação de calazar e suas consequências para o Maranhão

24 de agosto de 2022 : 19:21

Antonio Rafael da Silva
Professor Emérito da UFMA/Médico Infectologista

O conhecimento sobre o calazar teve início com o trabalho de Leishman, em 1903, quando ele descreve um soldado com febre, fígado e baço aumentados e emagrecimento. Neste mesmo ano, Donovan descreveu um microorganismo em um jovem com clinica semelhante à encontrada no paciente de Leishman, e Ross nomeou o gênero Leishmania como causa da doença. No Brasil, o primeiro caso foi descrito em 1913 – a década de 1950 foi fértil para a doença. Aqui, Coutinho mostrou uma série histórica de 308 casos da doença; Aragão, Deane e Alencar, em Sobral (Ceará) e Pondé e Pessoa em Jacobina (Bahia), descreveram áreas endêmicas da doença e aprofundaram o estudo de calazar em relação a clínica, vetores e reservatórios. No Maranhão tinha sido descrito apenas 3 casos da doença nas décadas de1960 e1970.

Antes de descrever o calazar como nosologia importante em nosso meio, vamos mostrar como a supremacia econômico-financeira se choca com a vocação mais humanizada dos movimentos sociais.

Já no início da década de 1980, se estabelece no Maranhão o governo com o slogan “O ESTADO SOLUÇÃO” e com ele a febre do sonhado desenvolvimento econômico. Aportavam no Maranhão a Companhia Vale do Rio Doce e a Indústria Alumínio (Alcoa/Alumar) para explorar, beneficiar e exportar o minério oriundo das minas de Carajás através do Porto de Itaqui. Na ocasião, eu trabalhava num projeto de pesquisa. Para esse estudo, para o qual selecionou-se 18 localidades da Ilha de São Luís com alta endemicidade malárica para estudar epidemiologia, dinâmica vetorial, aspectos clínicos e terapêuticos na perspectiva de interromper a transmissão com a interveniência da comunidade. Malária é uma doença transmitida por picada de mosquitos que evolui com febre, anemia, emagrecimento e aumento do fígado e do baço. Esse estudo teve duração de 5 anos, incluindo o exame clínico e parasitológico de crianças menores de 9 anos de idade (visando conhecer o índice esplênico, tamanho do baço), devido serem as mais sensíveis a esse tipo de doença. Mesmo a malária se assemelhando ao calazar, inclusive ao grupo etário que mais acomete, no período de estudo não foram encontrados crianças ou adultos, na Ilha de São Luís, com doença que não fosse malária. Conclui-se que, até então, o calazar não apresentava ameaça à nossa Saúde Pública. Os resultados dessa pesquisa deram origem à publicação “MALÁRIA: Fotografia de uma crise no setor saúde”.

Retornemos ao “Estado Solução” e aos dizeres do governador à época: “É meta absolutamente prioritária do meu governo a retomada do projeto Carajás… para que aqui se implante o grande polo siderúrgico… objetivo de especulações incompatíveis com as patrióticas intenções do Governo da República”. A promessa oferecida era o desenvolvimento, a riqueza e a diminuição da desigualdade – um mundo novo para o Maranhão.

Pois, no mesmo ano em que milhares de famílias que residiam em suas localidades há dezenas de anos foram deslocadas para dar lugar à implantação do Projeto Carajás, um surto epidêmico de calazar ocoreu na Ilha, iniciando pelo município de São Luís, seguindo o de São José de Ribamar, Paço do Lumiar e a Raposa. O autor deste artigo, em 1982, publicou em um congresso a emergência da doença em nosso Estado, totalizando 32 casos.

Aqui, é pertinente indagar. Qual o fator causal do Calazar na Ilha de São Luís e sua propagação geográfica para outras áreas do Estado? Podemos afirmar que na Ilha, o desequilíbrio ecológico foi a força motriz e que gerou a doença ao forçar a fixação de famílias vulneráveis em condições precárias de saúde e saneamento. Como também a necessidade de desmatar extensas áreas na pressa para se fixarem; Foi a aproximação de cães infectados a mosquitos vetores da doença ávidos para sugar sangue; Foi o stress social que convulsionou a convivência harmônica entre seres humanos e animais em ambientes transformados.

No Estado como um todo, podemos dizer que o responsável foi a falta de políticas públicas bem estruturadas, acrescidas da ausência de prioridades no combate às doenças e a negação da ciência. Dou exemplos. Vários estudos clínicos, epidemiológicos e entomológicos, realizados por professores da Universidade Federal do Maranhão e publicados após o surto de calazar na Ilha de São Luís, revelaram a colonização de flebotomíneos em vários municípios. Em trabalho sobre ecologia de flebotomíneos e sua interação com leishmanias, demonstraram a presença de várias espécies de leishmanias em flebotomíneos dos quais a espécie transmissora do calazar, Lutzomyia longipalpis, era predominante. Estudos realizados na Ilha, em parceria com as Universidades Federais do Piauí, Ceará e Minas Gerais e com Instituto Butantã de São Paulo sobre infecção em cães dos municípios da Ilha de São Luís, mostraram índices de positividade para calazar em São Luís (26,5%), São José de Ribamar (27,0%), Paço do Lumiar (56,1%) e Raposa (41,2%). Todos esses achados foram comunicados em artigos científicos e em relatórios às autoridades municipais e estaduais.

Conclui-se, portanto, que a euforia do sonhado desenvolvimento econômico e a ausência de políticas públicas se encarregaram das consequências, gerando assim: 1) a preocupação com uma doença que se disseminou para mais de 200 municípios e transformou o Maranhão no grande celeiro de calazar no Brasil; 2) a preocupação com uma doença que vulnera o equilíbrio das famílias e mata se não diagnosticada e tratada a tempo; 3) mais um fator importante na gama de situações que levou ao empobrecimento da população; 4) o constrangimento de uma população que assiste as empresas que iriam promover o desenvolvimento, a riqueza e a diminuição da desigualdade do nosso Estado, distribuirem seus lucros com acionistas que nem de longe imaginavam ser donos de uma riqueza que pertencia a outrem e, finalmente 5) perceber a realidade que não mudou e o Maranhão continuar a ser um dos mais pobres e mais desiguais estados do Brasil.

Todas estas idiossincrasias que culminam com a expulsão de populações dos seus locais de origem continuam a acontecer nos dias atuais e o apelo é o mesmo: o sonho do desenvolvimento econômico! Citemos o povoado de Cajueiro, no município de São Luís, uma testemunha viva desses fatos.

Antonio Rafael da Silva
Professor Emérito da UFMA/Médico Infectologista

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