Diego Emir | Poder, Política e Sociedade

Qual é a graça? O sofrimento dos atrasados do ENEM virou motivo para piada e zombaria

Parece que boa parte da população brasileira ficou doente. Milhares de pessoas foram para portas de colégios, faculdades ou qualquer lugar que abrigasse um local de prova do ENEM, realizada a primeira etapa neste domingo (5), para simplesmente zombar, tirar sarro e ainda expor aqueles que chegaram atrasados para a realização do principal vestibular do país.

Qual é a graça de ver alguém chorando, se desesperando, após perder uma chance de ingressar em uma universidade pública ou garantir uma vaga nas faculdades particulares através dos programas sociais do Governo Federal?

No meu ponto de vista, nenhuma. Pelo contrário, existe um sentimento de compadecimento.

Simplesmente não consigo entender, esses ditos humoristas e a população em geral que conseguem enxergar graça no sofrimento de outras pessoas. Como se o Brasil fosse um país cheio de oportunidades e quem se atrasa para aplicação da prova foi por conta de uma escolha pessoal ou por que vai ter uma vaga garantida no ensino superior, funcionando o ENEM como um tanto faz, tanto fez.

Óbvio que existem casos absurdos e pessoas descompromissadas com a prova, tanto que é comum, o famoso meme: “Chega três dias antes do show de fulano de tal, mas no Enem acorda em cima da hora”.

Mas com certeza uma boa parte daqueles que se atrasaram e consequentemente deixaram de fazer a prova foi por conta de um problema social. Tanto que é possível observar, os principais atrasados são pessoas de baixo poder aquisitivo e em sua maioria negros, evidenciando a vulnerabilidade social nesse quesito.

Pois estes citados, boa parte residem em áreas marginalizadas dos grandes centros educacionais, sofrem com a deficiência no transporte público, assim como tantos problemas ou simplesmente um nervosismo foram do comum os atrapalham, impossibilitando até de ficar em plenas condições para realizar o ENEM.

Antes, os locais do vestibular ficavam repletos de pais e mães aflitos por conta dos filhos que iriam realizar aquela prova que para muitos parece ser decisivo para sua vida. Depois vieram os ambulantes, aproveitar a oportunidade para garantir uma renda extra com venda de água, comida e canetas. Logo em seguida, os espaços passaram a ser ocupadas pelos cursinhos para fazer sua propaganda.

Porém no domingo (5), algo bizarro chamou atenção: o que mais se observou foram pessoas prontas para tirar sarro, zombar e fazer de chacota os que perderam o ENEM. Uma verdadeira plateia, só que nesse o show não era de horrores, mas sim o público.

Aqueles que saíram de casa para fazer piadas com o atraso dos candidatos, levaram cartazes, fizeram transmissão ao vivo, isopor de cerveja para curtir o sofrimento alheio e para completar até bandas foram montadas para garantir o espetáculo doentio.

Não, aqui não é nenhum politicamente correto ou tentando deixar a vida mais chata, mas é alguém que se sensibiliza e tem ojeriza aos que utilizam a dor do outro para fazer piada.

Sinto-me incomodado, revoltado com uma multidão de pessoas que se formou nas portas dos locais de prova do ENEM, só posso entender que essas pessoas são doentes, afinal não existe sentido em tornar piada o que é tão sério e às vezes tão decisivo na vida de pessoas, que boa parte já sofre com tantas adversidades sociais.

Bom humor sempre deve existir, afinal a vida deve ser levada de forma leve, mas curtir o desespero do outro, não tem graça nenhuma, pelo contrário é doentio.