Gigante chinesa pode estar por trás de negociação para comprar o TUP Porto São Luís da Cosan

A negociação para a venda do TUP Porto São Luís, empreendimento portuário localizado na região do Cajueiro, em São Luís, pode recolocar o capital chinês no comando de um dos projetos logísticos mais estratégicos do Maranhão. Embora a Cosan não tenha revelado oficialmente a identidade do comprador, movimentações recentes do mercado permitem levantar a hipótese de que uma gigante chinesa esteja interessada no ativo.

Na última quinta-feira (13), a Cosan comunicou ao mercado que formalizou uma carta de intenções para vender 100% de sua participação no TUP Porto São Luís pelo valor indicativo de R$ 300 milhões. O documento estabelece ainda período de exclusividade para negociação dos contratos definitivos. A transação, portanto, ainda não está concluída.

Além dos R$ 300 milhões, existe uma cláusula particularmente interessante: a Cosan poderá receber aproximadamente R$ 50 milhões adicionais por cada novo berço de atracação implantado no terminal até 2035, além do berço principal. O desenho da operação indica que o comprador pode ter planos de expansão significativa para o empreendimento.

COFCO surge como possibilidade

É justamente nesse ponto que entra a gigante chinesa COFCO, uma das maiores companhias de alimentos e agronegócio do mundo.

Não existe, até o momento, confirmação de que a COFCO seja a empresa que apresentou a proposta pelo TUP Porto São Luís. Portanto, qualquer associação entre a trading chinesa e o negócio precisa ser tratada como possibilidade e especulação de mercado, e não como fato consumado.

Entretanto, existem elementos que tornam a hipótese relevante.

A COFCO aparece atualmente entre os principais grupos interessados em outro importante ativo da própria Cosan: a participação de 20,3% da holding na Rumo, companhia responsável por uma das maiores malhas ferroviárias do país. Bunge e COFCO estão entre os interessados citados nesse processo.

Para uma companhia do porte da COFCO, possuir ou controlar um terminal portuário em São Luís poderia representar uma peça estratégica para ampliar sua presença na infraestrutura brasileira e criar uma nova alternativa de exportação pelo chamado Arco Norte.

A localização do empreendimento na Baía de São Marcos, próxima de estruturas como o Porto do Itaqui e o complexo ferroviário que atende a região, coloca o projeto em uma posição privilegiada para movimentação de grandes volumes de commodities.

Em um eventual projeto voltado ao agronegócio, o terminal poderia ganhar importância principalmente para o escoamento da produção de soja e milho do Matopiba, região formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Porto já pertenceu aos chineses

Existe ainda uma coincidência histórica que torna essa possível negociação ainda mais interessante.

Antes de chegar às mãos da Cosan, o controle do empreendimento estava justamente ligado ao capital chinês.

Em 2021, a Cosan negociou a aquisição do TUP Porto São Luís junto à China Communications Construction Company (CCCC). A São Luís Port Company, pertencente ao grupo chinês, detinha 51% do empreendimento. A aquisição integral foi concluída em fevereiro de 2022. Documentos financeiros da Cosan mostram que, somadas as duas etapas da operação, foram desembolsados aproximadamente R$ 804,8 milhões.

Naquele momento, a estratégia era diferente.

A Cosan pretendia utilizar o Porto São Luís como parte de uma operação integrada de mineração e logística, destinada principalmente ao escoamento de minério de ferro produzido em projetos no Pará. Inclusive, havia sido firmado memorando com empresas do próprio grupo CCCC para construção do porto voltado à movimentação de minério.

Agora, pouco mais de quatro anos depois de assumir integralmente o empreendimento, a Cosan decidiu sair do projeto.

Cosan vende por valor muito inferior ao desembolsado

Outro aspecto chama atenção.

Os documentos da companhia apontam desembolso total de aproximadamente R$ 804,8 milhões para adquirir as participações no Porto São Luís. A atual carta de intenções estabelece preço indicativo de apenas R$ 300 milhões, embora exista possibilidade de pagamentos futuros relacionados à construção de novos berços.

A própria Cosan reconheceu no balanço do segundo trimestre um impacto contábil negativo de R$ 233 milhões relacionado ao TUP Porto São Luís. A venda faz parte de um processo mais amplo de reorganização e redução do endividamento da holding.

Para o eventual comprador, entretanto, o interesse pode estar menos no que existe atualmente no local e muito mais no potencial futuro do empreendimento.

O TUP ainda não opera como um grande terminal portuário comercial consolidado. O ativo reúne área, projeto, autorizações e investimentos realizados ao longo dos últimos anos, permitindo que um novo controlador desenvolva o terminal de acordo com sua estratégia logística.

Um novo corredor Maranhão-China?

Caso a COFCO seja efetivamente confirmada como compradora, a operação poderá ganhar dimensão muito maior que uma simples negociação empresarial.

A China é o principal destino de diversas commodities brasileiras, e uma trading estatal chinesa controlando um terminal de águas profundas na costa maranhense poderia criar uma importante plataforma logística para exportação direta de produtos brasileiros para o mercado asiático.

Também seria uma curiosa volta às origens: um empreendimento que saiu do controle da chinesa CCCC para a Cosan em 2022 poderia, quatro anos depois, retornar ao controle de outro gigante chinês.

Por enquanto, entretanto, essa possibilidade permanece no campo das conjecturas.

A única informação oficialmente confirmada é que existe um terceiro adquirente, mantido em sigilo, disposto a pagar R$ 300 milhões pelos 100% do TUP Porto São Luís e que as partes estão negociando os documentos definitivos.

A identidade desse comprador será decisiva para compreender o futuro do empreendimento.

Se for confirmada uma grande trading internacional — especialmente a COFCO —, o Maranhão poderá estar diante da retomada de um projeto bilionário capaz de alterar significativamente a configuração logística da Baía de São Marcos e criar uma nova porta de saída para commodities brasileiras rumo à Ásia.

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