Por José Loredo

O Maranhão ainda se ressente da perda de uma de suas grandes figuras — o editor, escritor, acadêmico e bibliófilo Jomar Moraes (1940–2016), que nos deixou há exatos dez anos. Se há uma “paideia” genuinamente brasileira, para a qual a contribuição maranhense é alguma coisa de fundamental, a obra que nos legou Jomar Moraes constitui capítulo dos mais alentados. Convém cultuar a memória desse maranhense a quem tanto devemos.

Ainda me lembro da última vez em que estive com o mestre — alguns dias antes do seu falecimento. Ofereci-lhe um exemplar dos Contos de fadas e outros ensaios literários, de Chesterton, em tradução do nosso amigo em comum Ronald Robson. Ele me presenteou um de seus últimos feitos como editor: a Poesia reunida, de Maranhão Sobrinho, pela primeira vez organizada e editada em livro.

Conversamos sobre livros, o mundo editorial, projetos futuros. Fiz-lhe ver a necessidade de uma nova edição, mais manuseável, do Dicionário histórico-geográfico da Província do Maranhão, de César Marques, até hoje o mais importante repositório de dados sobre o Maranhão. Havia feito ele a 3ª edição — edição crítica irrepreensível, fartamente ampliada e atualizada — do clássico livro, labor que lhe custara 10 anos de dedicação, publicada em 2008, em comemoração ao centenário da Academia Maranhense de Letras (à sua Academia). O trabalho de uma equipe, feito por um só pesquisador. Já se tornara a sua edição raridade bibliográfica. “Lorêdo, o que acha de fazermos em dois volumes?”, perguntou-me. “Perfeito, dr. Jomar. Assim estará solucionado o ‘problema’ da extensão do livro.”. “Sim, vamos fazer.”.

O que o falecimento do mestre postergou, a dívida que temos para com ele não impedirá: dentro de alguns meses, seja para lembrar os dez anos sem Jomar Moraes, seja em comemoração ao bicentenário de nascimento de César Marques, será lançada a tão aguardada quanto necessária 4ª edição do Dicionário histórico-geográfico da Província do Maranhão, revista e atualizada pelo escritor e acadêmico Lino Raposo Moreira — guardião emérito dos originais da edição crítica — e por este insignificante editor. Novamente, o grande entusiasta do projeto é o presidente José Sarney.

***

Mais de uma centena de edições, com o apuro editorial requerido, atenção às normas básicas de fidedignidade textual, amplo material crítico e iconográfico, tem em Jomar Moraes o seu grande responsável e o seu propagador inexcedível. Muito lhe devem os João Francisco Lisboa, os Maranhão Sobrinho, os Sousândrade, os Gonçalves Dias, os Odorico Mendes, entre vários outros, que encontraram em Jomar Moraes o seu editor infatigável.

Para além do seu Gonçalves Dias — vida & obra, que em nada fica a dever em excelência aos esforços de uma Lúcia Miguel Pereira e de um Manuel Bandeira, há que referir, também, que outro senão Jomar Moraes seria o nome ideal a nos compor uma história da “literatura maranhense” — ou, antes, da “literatura no Maranhão”. Sobravam-lhe quatro grandes qualidades, indispensáveis ao historiador literário: a operosidade do pesquisador e do arquivista, a sensibilidade literária, a dimensão narrativa do historiador e os talentos de grande escritor.

O que lhe sobrava, de um lado, faltou-lhe, de outro — tempo foi o que lhe faltou para revisar e corrigir, ampliar e atualizar os seus dois excelentes livros de juventude, a Bibliografia crítica e os Apontamentos, aos quais, nos últimos anos de vida, devotava uma quase aversão, pelo muito que precisavam, no seu sentir, de uma nova e definitiva demão do Autor. Editor rigoroso e obsessivo como era; articulista dos principais jornais de São Luís, em vasto material que daria centenas de volumes; inteiramente dedicado, como um asceta, à sua Academia, que presidiu por exatos 22 anos, sendo, inegavelmente, o principal responsável pela dimensão de importância cultural e social que cabe à Casa de Antônio Lobo como guardiã da língua portuguesa, das letras e da cultura maranhense; em face de tudo isto, não logrou rematar as obras de juventude, ainda hoje, em todo caso, muito úteis aos estudos de “literatura maranhense”.

***

Sejam estas minhas palavras um reconhecimento, uma singela homenagem ao saudoso amigo e mestre Jomar Moraes. Mas que não fiquemos nisto; palavras, mesmo as copiosas, não constituem mérito algum. É de ação que precisamos — facta, non verba. Comecemos com a reedição das obras do grande escritor e acadêmico.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *