Entre o barro de Paço do Lumiar e o luxo do tênis suíço: o que o caso Ryan Xavier revela sobre empatia na medicina

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Nos últimos dias, repercutiu no Maranhão e em diversas partes do país a postagem feita por Ryan Xavier, estudante do quarto período de Medicina da UniCeuma, ao se referir à UBS Canaã, localizada na Vila Maioba do Jenipapeiro, em Paço do Lumiar, como o “c* do Maranhão”. A publicação, feita em tom aparentemente descontraído, rapidamente ultrapassou os limites de uma simples brincadeira e abriu espaço para uma discussão muito maior: qual o nível de sensibilidade social esperado de alguém que escolheu a medicina como profissão?

É importante deixar claro, antes de qualquer análise, que Ryan Xavier possui o direito constitucional à liberdade de expressão. Também é legítimo apontar problemas estruturais enfrentados pela saúde pública, especialmente em regiões onde o acesso a serviços básicos ainda ocorre em condições precárias. Criticar a infraestrutura de uma unidade de saúde não é crime, nem deveria ser tabu.

O problema, no entanto, não está na crítica em si, mas na forma como ela foi exposta. Ao transformar a realidade de uma comunidade em pano de fundo para uma publicação que envolvia ostentação e ironia, o estudante acabou evidenciando um distanciamento preocupante da realidade vivida por milhares de pessoas que dependem exclusivamente do SUS.

A imagem do tênis da marca ON — avaliado em cerca de R$ 1 mil — pisando no barro da entrada da UBS acabou simbolizando um contraste social que vai muito além do consumo de um produto caro. O episódio escancarou o abismo existente entre parte da elite acadêmica e a população que, no futuro, dependerá desses profissionais para receber atendimento médico humanizado.

Não há qualquer problema em possuir condição financeira privilegiada. O acesso a bens de alto valor, estudar em um curso cuja mensalidade ultrapassa os R$ 10 mil ou viver uma realidade confortável não torna ninguém automaticamente insensível. Contudo, a medicina exige mais do que conhecimento técnico: exige humanidade, empatia e compreensão das dores sociais que atravessam a vida dos pacientes.

Talvez Ryan Xavier ainda não compreenda completamente o peso simbólico de suas palavras. Afinal, ainda está em formação. Mas justamente por isso o episódio deveria servir como reflexão, não apenas para ele, mas para todo o ambiente acadêmico. O estudante de medicina de hoje será o médico responsável por atender amanhã pessoas humildes, vulneráveis e muitas vezes invisibilizadas socialmente.

A Constituição Federal frequentemente citada em debates sobre liberdade de expressão também assegura o direito à saúde e à dignidade da população. E embora não seja responsabilidade de um estudante resolver os problemas estruturais da saúde pública, espera-se, no mínimo, sensibilidade diante da realidade daqueles que dependem dela.

Ryan tem tempo para amadurecer, reconhecer os impactos de sua atitude e construir uma trajetória profissional diferente da imagem deixada pela postagem. O erro de um jovem não precisa ser sentença definitiva sobre seu caráter ou futuro. Contudo, minimizar completamente o episódio como “apenas uma brincadeira” também pode significar ignorar um comportamento incompatível com os princípios mais básicos do cuidado humano.

Quando concluir o curso, Ryan provavelmente fará o tradicional Juramento de Hipócrates, compromisso histórico ligado à ética médica, ao respeito à vida e à dignidade dos pacientes. E talvez seja justamente esse episódio que o faça compreender, desde cedo, que exercer a medicina vai muito além de diagnósticos, jalecos e status social. Trata-se, acima de tudo, de cuidar de gente — inclusive daquela que pisa diariamente no barro para tentar conseguir atendimento em uma UBS esquecida pelo poder público.

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