Doenças do aparelho digestivo estão entre as principais causas de cirurgia no Brasil: o que você precisa saber

Sick brunette having stomachache in the living room

Uma dor que não passa na barriga, azia quase todo dia, enjoo depois das refeições, sensação de estufamento, sangue nas fezes. Muita gente empurra isso por meses ou anos. Só que alguns desses sinais podem apontar para doenças tratáveis que, quando descobertas cedo, costumam ter um caminho mais simples de controle.

Este texto organiza o que mais aparece na prática clínica quando o assunto é aparelho digestivo e necessidade de cirurgia. A ideia é ajudar você a reconhecer alertas, entender causas comuns e chegar mais preparado(a) na consulta.

Leitura rápida: sinais que pedem atenção

Procure avaliação médica quando você tiver um destes pontos de forma repetida:

  • azia ou queimação que volta várias vezes na semana
  • dor no alto do abdômen após comer, em especial depois de gordura
  • dor forte do lado direito do abdômen que pode irradiar para as costas
  • vômitos recorrentes, perda de peso sem explicação
  • mudança de hábito intestinal que dura mais de 2 a 3 semanas
  • sangue vivo, escurecido ou aspecto de borra de café nas fezes ou no vômito
  • anemia sem causa clara, cansaço fora do padrão
  • febre com dor abdominal e barriga endurecida

Vá a um pronto atendimento se houver dor abdominal muito intensa, desmaio, vômito persistente com sinais de desidratação, sangue em grande quantidade, ou dor no peito com falta de ar. Nem toda dor no peito é refluxo.

O aparelho digestivo é grande e trabalha em equipe

De acordo com um cirurgião especializado em aparelho digestivo em Goiânia, o sistema digestivo envolve esôfago, estômago, intestinos, fígado, pâncreas, vesícula, reto e ânus.

Cada parte tem uma função, mas os sintomas podem se misturar. Dor, queimação, gases, diarreia, constipação e enjoo nem sempre indicam o mesmo problema.

Um ponto que ajuda muito é observar o padrão:

  • quando começou
  • o que piora e o que melhora
  • se existe relação com comida, álcool, cigarro, remédios e estresse
  • se você acorda à noite por causa do sintoma
  • se há perda de peso, febre, anemia, sangue nas fezes ou vômitos

Anotar isso por alguns dias já melhora bastante a qualidade da consulta.

Refluxo gastroesofágico: quando a azia deixa de ser só azia

O refluxo acontece quando o conteúdo do estômago volta para o esôfago. Um episódio isolado pode ocorrer após exageros na alimentação. A doença do refluxo (DRGE) entra em cena quando os sintomas são frequentes e atrapalham o dia a dia, ou quando surgem complicações.

Em um inquérito populacional em grandes cidades brasileiras, a queimação no peito (pirose) apareceu em torno de 11,8% ao longo do ano. Esse dado ajuda a entender por que a azia é tão comum, mesmo quando nem todo caso vira DRGE.

Sinais comuns

  • queimação no peito (azia)
  • gosto amargo na boca, regurgitação
  • tosse crônica, pigarro, rouquidão
  • sensação de bolo na garganta
  • dor no peito que lembra aperto (sempre precisa ser avaliada)

O que costuma ajudar antes de pensar em cirurgia

  • reduzir refeições grandes à noite
  • evitar deitar logo após comer
  • ajustar peso quando há excesso
  • moderar álcool e parar cigarro
  • avaliar alimentos gatilho (varia muito de pessoa para pessoa)
  • usar medicamentos quando indicados, com orientação

Quando a cirurgia pode entrar no plano

Cirurgia não é a primeira etapa para a maioria das pessoas. Ela costuma ser considerada quando:

  • o controle com mudanças e medicamentos não fica estável
  • há hérnia de hiato importante associada
  • surgem complicações como estreitamentos, inflamação persistente ou esôfago de Barrett (situações que exigem acompanhamento)

A técnica mais comum é a fundoplicatura por videolaparoscopia, que reforça a barreira entre estômago e esôfago. O tipo de técnica e a indicação dependem do quadro e dos exames.

Cálculos na vesícula: um motivo frequente de cirurgia

Dr. Thiago Tredicci, médico cirurgião do aparelho digestivo em Goiânia, explica que, a colelitíase é a presença de pedras na vesícula. Nem todo mundo com cálculo sente algo. O problema é quando a pedra provoca dor, inflamação ou obstrução.

Para ter noção de volume, dados do SIH/SUS mostram centenas de milhares de internações por colelitíase e colecistite por ano, chegando a quase 400 mil em 2024.

Em 2019, antes da pandemia, o SUS registrou mais de 225 mil colecistectomias; em 2020, houve queda importante por conta da reorganização dos serviços.

Como a dor costuma aparecer

  • dor forte no alto do abdômen, mais para a direita
  • piora após refeições gordurosas
  • pode irradiar para as costas ou ombro direito
  • pode vir com náusea e vômito
  • febre e calafrios sugerem inflamação e pedem avaliação rápida

Por que isso não é só desconforto

Sem tratamento adequado, pode evoluir para complicações como:

  • colecistite (inflamação da vesícula)
  • pancreatite biliar
  • infecção das vias biliares (colangite)

Tratamento e recuperação

Quando há sintomas repetidos ou complicações, a cirurgia para remover a vesícula (colecistectomia) é o caminho mais comum. Hoje, grande parte dos casos é feita por videolaparoscopia, com recuperação mais rápida na maioria das pessoas.

Um resumo do que costuma acontecer:

  • preparo e avaliação clínica
  • cirurgia com pequenas incisões
  • alta no mesmo dia ou no dia seguinte em muitos casos
  • retorno gradual à rotina, conforme orientação

Câncer colorretal: por que o diagnóstico precoce muda tudo

Câncer de cólon e reto está entre os tumores mais incidentes no Brasil. Nas estimativas do INCA para 2026 a 2028, ele aparece em segundo lugar em incidência tanto em homens quanto em mulheres (quando se exclui pele não melanoma).

O ponto principal é que ele pode ser prevenido ou detectado cedo, em especial quando o rastreamento e a investigação de sintomas são feitos no tempo certo.

Sinais que merecem investigação

  • sangue nas fezes
  • alteração do ritmo intestinal (diarreia ou prisão de ventre fora do padrão)
  • fezes mais finas por semanas
  • dor abdominal persistente, inchaço e gases que fogem do normal
  • anemia e cansaço sem explicação
  • perda de peso sem motivo claro

Esses sinais não significam câncer, mas justificam avaliação.

Rastreamento: quando começar

A idade e o melhor exame variam conforme o risco. Em pessoas com risco médio, muitos serviços discutem início entre 45 e 50 anos. Em quem tem histórico familiar, doenças inflamatórias intestinais ou outros fatores de risco, o começo pode ser mais cedo.

Exames usados na prática:

  • pesquisa de sangue oculto nas fezes
  • colonoscopia (também permite remover pólipos)
  • métodos por imagem em situações específicas

A escolha do caminho ideal precisa considerar disponibilidade, risco e histórico.

Tratamento

O tratamento depende do estágio e do local. Pode envolver cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Quando descoberto cedo, a chance de controle costuma ser bem maior.

Quando procurar um especialista em aparelho digestivo

Se algum sintoma está virando rotina, faz sentido buscar avaliação. Leve uma lista simples para não esquecer.

Checklist para a consulta:

  • sintomas, frequência e intensidade
  • alimentos e situações que pioram
  • remédios em uso (inclusive anti-inflamatórios e suplementos)
  • histórico familiar de câncer, pólipos ou doenças intestinais
  • perda de peso, febre, anemia, sangue nas fezes
  • exames anteriores, se existirem

Outras condições que também podem exigir cirurgia

Nem todo caso vai para o centro cirúrgico, mas algumas situações entram no radar:

  • apendicite: dor que migra para a parte inferior direita do abdômen, febre, náusea
  • diverticulite com complicações: dor forte do lado esquerdo, febre, alterações intestinais
  • hérnias (umbilical, inguinal, incisional): dor e aumento de volume, risco de encarceramento
  • obstrução intestinal: barriga distendida, vômitos, parada de gases e fezes
  • doença de Crohn e retocolite ulcerativa: quando há estreitamentos, fístulas, sangramentos importantes ou falha de controle
  • tumores de pâncreas, fígado e estômago: exigem avaliação especializada e plano individual

Quem é o gastrocirurgião e como ele atua

gastrocirurgião é o médico focado nas cirurgias do aparelho digestivo. O gastroenterologista atua muito no diagnóstico e no tratamento clínico. Em muitos casos, os dois trabalham juntos, com exames e decisões compartilhadas.

O que costuma fazer diferença no resultado:

  • boa avaliação pré-operatória
  • indicação correta, sem antecipar cirurgia quando não precisa
  • escolha da técnica (aberta, laparoscópica, robótica) conforme o caso
  • acompanhamento no pós-operatório, com orientação clara

Hábitos que protegem a saúde digestiva

Algumas atitudes simples reduzem risco de sintomas e complicações:

  • comer com mais calma, mastigar bem
  • reduzir ultraprocessados no dia a dia
  • manter atividade física regular
  • dormir com rotina mais estável
  • controlar peso quando há excesso
  • usar anti-inflamatórios somente quando necessário e com orientação
  • evitar automedicação para azia por longos períodos sem investigar

Conclusão: informação ajuda você a chegar mais cedo ao diagnóstico

Dor abdominal, azia recorrente e mudanças intestinais merecem atenção. Muitas doenças digestivas têm tratamento eficaz e, quando são avaliadas no começo, o cuidado costuma ser mais simples.

Se os sintomas estão persistentes, busque um profissional de confiança para investigar e orientar o melhor caminho para o seu caso.

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