Diego Emir | Poder, Política e Sociedade

A política maranhense e o relógio da praça João Lisboa

Como se não bastasse um dos piores momentos atravessados pela política na história brasileira, o Maranhão permanece atolado no lama chafurdada por adversários antigos e inimigos recentes. Embora as dinâmicas naturais do processo político, as disputas paroquiais locais pouco elevaram o tom e o nível dos debates, nas últimas décadas. Do século XIX aos dias atuais, tudo continua como dantes no quartel de Abrantes.

Os insultos de inimigos ferrenhos nos jornais de antigamente, pesquisados com o rigor acadêmico do professor de Comunicação Social da UFMA, Sebastião Jorge, apenas mudaram do meio impresso para eletrônico, mais exatamente nas redes sociais. Um trecho do periódico O Censor Maranhense (1825-1830) revela certa editorialização do insulto, proferido pelo português Garcia de Abranches: “Lord Cochrane, sedento e insaciável ouro-xuga, e o esfaimado Lobo Presidente Interino do Maranhão, são os monstros de quem falamos e vamos desmascarar à face do mundo inteiro, tanto para vergonha da espécie humana, como na presente e futura idade se saiba que tais indivíduos apenas têm de homem o nome e figura”.

O relógio da Praça João Lisboa, outro jornalista de tumultuadas épocas, é a própria metáfora de uma atividade que parece parada no tempo. O pendor maranhense para a política com o fígado remonta de priscas eras. Há registros de que a imagem da lendária Ana Jansen já foi estampada no fundo de penicos de porcelana, confeccionados na Inglaterra, por um inimigo político. Atualmente, o lugar onde se faz muita merda é nas redes sociais. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não é o único a sofrer de incontinência verbal no Twitter.

Política ou Psicologia? – Para muitos, foi-se o tempo da compostura exigida a ocupantes de cargos públicos, do decoro e de certa aura de estadista em torno dos ditos homens públicos, tão admirados nos idos de mil novecentos e carne de porco, expressão tão antiga quanto essa que escreve. Ainda que não se tenha tal postura no exercício de um cargo, a comunicação de um governo tem por dever prestar contas à população e esclarecer os fatos. A frase postada ontem, pelo atual responsável pela pasta, jornalista Márcio Jerry, se desloca do campo político para o psicológico: “Aparentando desequilíbrio, Roberto Rocha faz acusações absurdas a Flávio Dino numa tentativa desesperada de aparecer. Em 2012 e 2014 ajudamos a eleger Roberto Rocha acreditando numa regeneração política. Mostrou-se rapidamente em processo de DEGENERAÇÃO”, vomita o secretário estadual de Comunicação e Articulação… política!

É o Maranhão e o Brasil da Sofrência, do Arrocha! Aliás, atire a primeira Rocha aquele que não sofreu por traidor. A alcunha de “traidor” é uma das obsessões da política local. Por aqui, raposas são afagadas e prevalece o dito do cantor Tim Maia: “prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme, traficante se vicia e pobre é de direita”. O governo estadual é de esquerda, mas abriga o PSDB, se elege com apoio de pecuaristas e mantém vínculos com aliados do bispo Edir Macedo e do presidiário e ex-deputado Eduardo Cunha.

São a lenda da serpente, o processo contra as formigas, as carruagens que insistem em continuar aparecendo em pleno século XXI.


Texto e foto: Flávia Regina