Diego Emir | Poder, Política e Sociedade

Maranhão imerso no caos

8 de janeiro de 2014 : 19:48

Correio Braziliense

Os 60 assassinatos de 2013 no Complexo Penitenciário de Pedrinhas — somados aos dois já consumados em 2014 — escancararam as condições subhumanas de sobrevivência no presídio superlotado. Com os episódios da última sexta-feira, quando atos de vandalismo vitimaram uma menina de 6 anos e deixaram outros quatro hospitalizados, a questão saiu de Pedrinhas e aterrorizou os maranhenses. Submetida às condições de vida de um estado que frequenta assiduamente as piores posições em rankings de desenvolvimento humano e social (veja quadros), a população também perdeu parcialmente o direito de ir e vir — muitos motoristas de ônibus e cobradores têm se recusado a trafegar durante à noite, com medo de ataques incendiários.

O deputado estadual César Pires (DEM) garante que a governadora Roseana Sarney tem escutado “sem vaidade” a todos que possam contribuir para resolver o caos em Pedrinhas. O líder do governo na Assembleia Estadual do Maranhão diz que não se fala em outra coisa no Executivo ou no Legislativo estaduais, deixando de lado até mesmo discussões sobre as eleições de outubro. Para o padre Elisvaldo Cardoso, coordenador da Pastoral Carcerária no Maranhão, no entanto, a situação só se resolverá com mudanças profundas e estruturais, que envolvem muito mais do que o sistema carcerário. “Dar um basta à violência dentro dos presídios não significa só ter mais cadeias, mas também mais salas de aula, professores valorizados, crianças e jovens estudando e se profissionalizando. Aí sim, vamos diminuir, com certeza, o número de presos.”

“O problema da segurança pública envolve várias nuances. Não tem como fugir disso”, admite Pires. O ex-reitor da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) pondera, no entanto, que “esse upgrade social demora”. “A evolução das coisas está acontecendo. Poderia estar melhor, mas não posso dizer que há inação do governo”. De acordo com ele, o estado tem conseguido “colocar os alunos na sala de aula”, mas a dívida é grande. “Se formos conceituar a importância da educação, teríamos que remontar à construção da historiografia nacional. Pagamos o preço disso”, analisa. O parlamentar acredita que a ignorância também contribui para que as pessoas não melhorem de vida. “A sociedade, por não ter conhecimento, não sente a dor do analfabetismo. Para um pai, é mais fácil que o filho renda R$ 180 por semana como ajudante de pedreiro, do que um filho estudando e, 15 anos depois, se formando.”

Para Zema Ribeiro, da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), a privação de direitos básicos a que a população é submetida tem razões claras. “O que tem de riqueza aqui está vinculada aos megaprojetos — que são riquezas que passam. O minério vem de Carajás, passa por aqui e vai para a China. A soja, que cresce cada vez mais, é tirada daqui e exportada. O povo mesmo não fica com nada”, comenta. Além disso, o que poderia ficar para a população é “captado pela corrupção”. “A pessoa que passa quatro anos com os direitos essenciais sendo violados. Quando se aproxima a eleição, e vê um filho com fome, uma esposa doente, se submete a trocar o voto por um favor. Isso se reflete na espécie de acomodação da população maranhense”, critica.

O deputado federal Domingos Dutra (Solidariedade-MA) analisa que os marginalizados do lado de fora são os que acabam indo para os presídios. “Há um vinculo forte entre pobreza, a miséria aqui fora, com o que está lá dentro (do presídio). Lá só tem gente lascada, de ‘colarinho preto’, como digo: de baixa renda e originários de periferias”, lamenta. Para o parlamentar, que foi relator da CPI do Sistema Carcerário, “no Maranhão isso fica mais evidente, graças à concentração histórica de renda”.

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